Dados Preliminares Sobre a História da Anestesiologia em Minas Gerais

Expedito Moreira, MSc, TSA
Raul Costa Filho, TSA
Thadeu Pereira de Figueiredo, TSA
Leonor Horta Figueiredo, TSA

I – Primórdios

Ainda não sabemos onde e quando foi feita a primeira anestesia em Minas Gerais. É relatado que, por volta de 1900, em Juiz de Fora, o Dr. Hermenegildo Villaça operava bócio com anestesia local e aplicava anestesia geral com cloretila. Em 12 de Junho de 1907, foi realizada a primeira anestesia geral em Belo Horizonte, utilizando-se clorofórmio gotejado em uma flanela, que recobria uma máscara de arame. Retornando da França em 1918, o Prof. Borges da Costa trouxe a máscara de Ombredane, largamente empregada deste então. Pelo menos até 1964, esta máscara era utilizada no interior de Minas, conforme constatou um dos autores (EM) em Piumhy. Também a máscara de Yankauer foi muito utilizada para anestesia infantil com cloretila e éter dietílico. Até hoje existe anestesiologista em Belo Horizonte que a emprega para anestesia inalatória com halotano. Em 1918, o Hospital da Força Pública de Minas adquiriu um aparelho Roth-Dragger, que permitia o usode clorofórmio e de éter. O Dr. Olinto Meireles realizou a primeira anestesia geral com esse aparelho. De 1922 a 1928, utilizava-se na Clínica de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina, em Belo Horizonte, tubo endotraqueal de Kuhn-Halle, provido de um funil recoberto por uma flanela, sobre a qual se gotejava clorofórmio.
Em 26 de agosto de 1908, o Prof. Hugo Werneck realizou a primeira raquianestesia em Belo Horizonte, utilizando agulha de Bier e estovalina. Em 19 de maio de 1922, foi introduzida a anestesia para-sacral pelo Dr. José Camilo de Castro e Silva e, em 1923, a raquianestesia alta, pelo Prof. Dorinato Lima, com punção suboccipital para operações sobre a tireóide. Em 1934, o Prof. Silva de Assis regressou da Alemanha e iniciou o emprego da anestesia peridural para cirurgia urológica. Entretanto, os bloqueios no canal raquiano foram, no início, menos difundidos do que a anestesia geral. Assim, em algumas cidades, a raquianestesia e a peridural somente começaram a ser utilizadas muitos anos depois. Em Barbacena, praticava-se a anestesia com máscara de Ombredane até 1955, mas a primeira raquianestesia foi realizada em 1958 por cirurgião, apesar de a cidade contar com médico treinado em Anestesiologia, que exercia a especialidade como ocupação principal. Em Belo Horizonte, pelo menos, por volta dos anos sessenta havia resistência dos cirurgiões contra a peridural e a raquianestesia.
Nos primórgios, a anestesia, principalmente a inalatória, era realizada por médicos, enfermeiras, irmãs de caridade, serventes e até propagandistas de laboratório. Em algumas cidades, por motivos econômicos, houve dispota pelo mercado de trabalho entre estes profissionais sem formação e os médicos anestesiologistas que se estabeleciam.
O Dr. Amin Feres, de Barbacena, relata que, ao se estabelecer na cidade em 1955 como médico anestesiologista, permaneceu cerca de 6 meses sem trabalho, enquanto os enfermeiros realizavam as anestesias. Chegou a ser aconselhado por cirurgião a recolher o seu equipamento e mudar-se para centro maior. É interessante notar que nos primórdios era comum enfermeiros realizar anestesia, sem, entretanto, terem-se firmado como profissionais de anestesia, ao contrário do que aconteceu em outros países.
Provavelmente isto se deveu a que a formação dos enfermeiros era essencialmente prática e insuficiente e, ainda, à falta de organização profissional. Os novos especialistas encontraram resistência até da Associação Médica. Seu reduzido número e organização e espírito de luta e a inexorabilidade do progresso constituíram fatores determinantes para o sucesso da especialidade. Para se ter uma idéia das dificuldades iniciais, vem a pelo relatar a reunião de 03/07/67 do Departamento de anestesiologia. Nela, os anestesiologistas filiados, em assembléia, estabeleceram um protocolo batizando o ensino, o exercício da especialidade, a filiação ao Departamento e a cobrança de honorários sem desconto de percentagem.
A respsota ao movimento associativo não se fez esperar. Em reunião de 29/08/67, O Presidente da Associação Médica de Minas Gerais endereçou carta ao Dr. Geraldo Berquó, “Presidente do Protocolo” comunicando que os hospitais não mais forneceriam o material, o instrumental e o pessoal necessários ao ato anestésico, que até a recuperação total da anestesia, o paciente, a enfermagem e os acompanhantes e visitantes ficariam sob a responsabilidade do anestesiologista – que os hospitais não encaminhariam cobrança de honorários devidos por anestesia nem para particulares. Havia casos de proibição de os anestesiologistas deixarem seu equipamento no hospital, conforme se pode ver na ata de 11/01/56, do Departamento de Anestesiologia.

II – Era Profissional

A capacitação do profissional de anestesia, isto é, do anestesiologista, iniciou-se na década de quarenta. Em Belo Horizonte, Antônio Ubaldo Pena fez curso em 1941 com o Dr. Mário dAlmeida no Rio de Janeiro. Em 1946 segue o Dr. Thadeu Pereira de Figueiredo para o Estados Unidos, onde cursa residência em Anestesiologia com o Dr. Stuart Collen. A partir daí vários médicos se capacitaram na especialidade, no Rio de Janeiro, em São Paulo e no exterior. Em 1950, o Dr. Thadeu Pereira de Figueiredo começa a oferecer treinamento em Anestesiologia em seu serviço no Hospital São Lucas.
Em 1956, o boletim Anestesia noº 8 anuncia treinamento com patrocínio da SBA nos hospitais belorizontinos Felício Rocho, São Lucas, Vera Cruz e Casa de Saúde São Marcos, respectivamente, sob a responsabilidade de Ciro canaan, Thadeu Figueiredo, Petrônio Boechat e Leonardo Cavalieri. Em 1963, surge o primeiro centro de ensino e treinamento em Minas, sediado na Santa Casa de Misericórdia, em Belo Horizonte, sob a responsabilidade do Dr. Thadeu. Em 1996, existem em Minas oito centros de ensino, distribuídos em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberaba, Uberlância e Pouso Alegre. A partir de 1963, as Faculdades de Medicina incluíram a disciplina de Anestesiologia no curso de formação.
A idéia de se implantar o Título de Especialista em Anestesiologia e consolidar a Anestesiologia como especialidade médica respeitada germinou em Minas, em 1953, durante a Terceira Assembléia Geral, o embrião dos atuais congressos, sendo presidente da SBA o Dr. Rodrigues Alves. Em agosto de 1956, o mineiro Raul Costa Filho, então presidente da SBA, publicou editorial no boletim Anestesia, encarecendo em nome da Diretoria a necessidade da aprovação do TEA, o que efetivamente veio a acontecer. Em outubro de 1957, o boletim Anestesia publica a relação dos primeiros mineiros aprovados no concurso para o TEA, sendo eles os Drs. Raul Costa Filho, Thadeu Pereira de Figueiredo, Leonor Horta Figueiredo, a primeira mulher a conquistar o título de especialista no Brasil, Geraldo Berquó I. Ferreira e pedro Cardoso Filho. Neste primeiro concurso foram aprovados 26 anestesiologistas brasileiros.
Como corolário da capacitação técnica deu-se o desenvolvimento das práticas anestésicas e a profissionalização. Foram criados serviços de anestesia em hospitais e a especialidade implantou-se em várias cidades de Minas. Em 1946, fundava-se o Serviço de Anestesiologia da Santa Casa, tendo como chefe o Dr. Thadeu P. Figueiredo. Já em 1947, o Dr. José Lima Drummond foi nomeado anestesiologista do Hospital militar, sendo o primeiro com dedicação exclusiva à especialidade. Quis o destino que fosse também a primeira vítima do exrcício profissional, pois morreu em consequência de poliomelite, contraída de paciente a quem prestava assistência respiratória. Em Juiz de Fora, o Dr. Olavo Martins da Costa introduziu a prática da anestesiologia moderna em 1948, após estágio no Rio de Janeiro. Nos anos cinquênta, foram pioneiros os Drs. Abdala Miguel em Uberlândia, Aniz Abdala em Uberaba, Amin Feres em Barbacena e Jason Teixeira da Silva em Montes Claros.
Em 1948 fez-se a primeira intubação endotraqueal em Belo Horizonte e três anos depois realizou-se a primeira toracotomia com respiração controlada. Em 1958 W. L. Pawan, tendo concluído residência em Anestesiologia nos Estados Unidos, regressou a Belo Horizonte, onde introduziu a hipotemia profunda e dois anos depois, fez-se a primeira anestesia para cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea. Em novembro de 1962, em Belo Horizonte, o Dr. Raul Costa Filho realizou anestesia para o primeiro implante de marca-passo na América do Sul.

III – Atividades Associativas

Desde cedo Minas compareceu com entusiasmo às atividades associativas e científicas. Já na Primeira Assembléia Geral da SBA (precursora dos atuais congressos), realizada no Rio de Janeiro, em abril de 1952, participaram de Minas os Drs. Petrônio Monteiro Boechat com o tema Bloqueios Anestésicos do Simpático, Joaquim Pessoa Duarte com o tema Posição do Paciente na Mesa Cirúrgica, e Luiz Arantes com o tema Entubação Traqueal com Prévia Traqueostomia. Na Segunda Assembléia Geral da SBA, em São Paulo, o Dr. Raul Costa Filho participou de mesa redonda sobre respiração controlada com o tema “Nossa experiência com o Spiropulsador”, publicado no número 2 da Rev. Bras. de Anest., de agosto de 1953. A Terceira Assembléia Geral da SBA aconteceu em Belo Horizonte, de 6 a 8 de novembro de 1953; participaram da Comissão Organizadora os colega de Minas Petrônio Monteiro Boechat, Euclides de Souza Mota, Thadeu Figueiredo, Raul Costa Filho e Geraldo Berquó. Minas Gerais sediou em 1959, em Belo Horizonte, o VI Congresso Brasileiro de Anestesiologia, em 1963 o X CBA, em poços de Caldas, em 1974 o XXI CBA em Belo Horizonte e em 1984 o XXXI CBA, na mesma cidade. Em setembro de 1967 realizou-se em Belo Horizonte a Segunda Jornada São Paulo-Rio-Minas, de uma série de jornadas que até hoje vêm acontecendo com regularidade, agora com o nome JASB.
Em 13 de fevereiro de 1953 efetivava-se a criação do Departamento de anestesiologia da Associação Médica de Minas Gerais, com a posse da primeira diretoria , assim constituída: Presidente, Ubaldo Pena; Vice-Presidente, Euclides Mota; 1º Secretário, Geraldo Berquó I. Ferreira; 2º Secretário, João Luiz Fernandes. Os seguintes colegas presidiram o Departamento de Anestesiologia da Associação Médica de Minas Gerais:

Presidiram o Departamento de Anestesiologia da Associação Médica de Minas Gerais

  • 1953 – Antônio Ubaldo Pena
  • 1954 – Geraldo Berquó Inácio Ferreira
  • 1955 – Joaquim Pessoa Duarte
  • 1956 – Thadeu Pereira de Figueiredo
  • 1957 – Leonardo Cavalieri
  • 1958 – Petrônio Monteiro Boechat
  • 1959 – Pedro Cardoso Filho
  • 1960 – João Luiz Fernandes
  • 1961 – Pedro Rodrigues Homem
  • 1962 – Erivaldo de Souza Couto
  • 1963 – Pedro Cardoso Filho
  • 1965 – Ildeu Alves de Souza
  • 1967 – Geraldo Berquó Inácio Ferreira
  • 1969 – Erivaldo de Souza Couto
  • 1971 – Wilson Luiz Pavan
Em 17 de março de 1972, em assembléia geral, foi criada a Sociedade de Anestesiologia de Minas Gerais (SAMG), cuja primeira diretoria ficou assim constituída: Presidente, Wilson Luiz Pavan; Vice Presidente, joaquim Pessoa Duarte; 1º secretário, Alberico Salazar Neto; Tesoureiro, Pedro Paulo Salgado Veiga. Os seguintes colegas presidiram a SAMG:

Presidentes Anteriores da SAMG

  • 1972 – Wilson Luiz Pavan
  • 1973 – Joaquim Pessoa Duarte
  • 1975 – Pedro Paulo Salgado Veiga
  • 1977 – Euler Miguel Fonseca Erse
  • 1979 – Celso Homero Santos Oliveira
  • 1982 – José Otávio de Carvalho Lopes
  • 1984 – Renato Geraldo da Silva Machado
  • 1986 – Kleber Costa de Castro Pires
  • 1988 – Pedro Alcântara Vilela
  • 1990 – Expedito Moreira
  • 1992 – Flávio Ribeiro Martins
  • 1994 – Jaci Custódio Jorge
  • 1996 – Jaci Custódio Jorge
  • 1998 – Geraldo Teixeira Botrel
  • 2000 – Alcebíades Vitor Leal Filho
  • 2002 – Ana Maria Vilela Bastos Ferreira
  • 2004 – José Mariano Soares de Moraes
  • 2006- Tolomeu Artur Assunção Casali
  • 2010- Mozart Ribeiro
  • 2012- Jaci Custódio Jorge
  • 2016- Michelle Nacur Lorentz